A escassez de motoristas profissionais deixou de ser um problema restrito ao recrutamento e passou a ser tratada pelo setor como um risco operacional para a logística brasileira. Em um país onde cerca de 65% das mercadorias dependem das rodovias para chegar aos centros de consumo e produção, a dificuldade para renovar a categoria começa a preocupar transportadoras, embarcadores e operadores logísticos.
Levantamento da CNT aponta que 65,1% das empresas do setor enfrentam dificuldades para contratar motoristas profissionais, tornando a escassez de condutores um dos principais gargalos operacionais do transporte rodoviário brasileiro.
Às vésperas do Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, entidades do setor defendem uma mudança na forma como o tema é abordado. Mais do que discutir a falta de mão de obra, o desafio passou a ser entender por que a profissão perdeu atratividade entre os jovens e deixou de ser vista como uma opção de carreira para as novas gerações.
O problema ocorre em paralelo ao envelhecimento da categoria. Dados do setor indicam que a idade média dos caminhoneiros brasileiros já se aproxima dos 46 anos, enquanto a participação de profissionais com menos de 30 anos permanece reduzida.
O desafio da renovação
Para o Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), a discussão precisa avançar além da formação de novos profissionais. Muitos pais já não enxergam a atividade como uma carreira desejável para os filhos, o que compromete a sucessão profissional e amplia o desafio de renovação da mão de obra. Entre os fatores apontados pelo setor, estão a violência nas rodovias, os longos períodos longe da família, as jornadas extensas e a percepção de perda de qualidade de vida associada à profissão.
Embora a remuneração continue sendo um componente importante, entidades e empresas reconhecem que ela deixou de ser suficiente para atrair as novas gerações.
Impactos já aparecem nas operações
A dificuldade de contratação começa a produzir efeitos concretos sobre as operações das transportadoras. Empresas relatam aumento do tempo necessário para preenchimento de vagas, elevação dos custos de recrutamento e maior competição por profissionais experientes, movimento que pressiona salários e amplia a rotatividade entre empresas.
Em algumas regiões, empresas relatam aumento do tempo necessário para preenchimento de vagas, especialmente em operações que exigem especialização, como transporte de produtos perigosos, cargas refrigeradas e operações de longa distância.
O cenário tende a ganhar relevância nos próximos anos diante do crescimento esperado da demanda por transporte associado ao agronegócio, ao comércio eletrônico e à expansão dos fluxos logísticos domésticos.
Mulheres entram no radar
A ampliação da participação feminina passou a ser vista pelo setor como uma das principais alternativas para ampliar a base de profissionais disponíveis. Hoje, as mulheres representam apenas 3,4% dos motoristas habilitados para conduzir veículos pesados no Brasil, segundo dados citados pela União Internacional dos Transportes Rodoviários (IRU), percentual que coloca o país abaixo de mercados que também enfrentam escassez de mão de obra, como Estados Unidos e China, onde a participação feminina já alcança cerca de 8% e 6%, respectivamente.
A baixa representatividade reflete barreiras históricas associadas à segurança nas estradas, à infraestrutura inadequada para mulheres em pontos de parada e à própria cultura predominantemente masculina do transporte rodoviário. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da categoria e a redução do interesse dos jovens pela profissão levaram empresas e entidades a tratar a inclusão feminina menos como uma agenda de diversidade e mais como uma questão de sustentabilidade da força de trabalho do setor.
O SEST SENAT passou a adotar mecanismos para ampliar a participação feminina na formação de condutores profissionais. O edital mais recente do Programa Mais Motoristas reservou um período exclusivo de inscrições para mulheres antes da abertura ao público em geral, além de custear integralmente a mudança de categoria da CNH e os cursos de qualificação necessários para ingresso na profissão.
Em um setor que responde pela maior parte da movimentação de cargas do país, a formação da próxima geração de motoristas começa a ser tratada não apenas como uma questão trabalhista, mas como um tema de competitividade e segurança da cadeia logística nacional.

